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A propósito
FOFOCA: ESPORTE NACIONAL
Esta semana, o último filme do Almodóvar, “Volver”, foi escolhido pra representar a Espanha na corrida pelos Oscars de melhor estrangeiro. A história é um excelente retrato da España profunda – como os espanhóis “carinhosamente” apelidam essa Espanha que não sai nos prospectos das agências de turismo. Sabe o interiorzão de qualquer país latino, onde o cara vive entre fofocas e superstições, naquele mundinho cotidiano de preocupações prosaicas como “o que meu vizinho fez hoje?”; “por que chegou tão tarde em casa?”; “quem é aquela mulher diferente que apareceu na praça?”?
Se bem que, aqui, você nem precisa ir tão longe pra ter contato com gente viciada em vida alheia. São os próprios espanhóis que dizem: “el cotilleo es el deporte nacional” (a fofoca é o esporte nacional). Caso verídico:
Anos atrás, aqui em Barcelona, troquei o tapete (capacho) da entrada de casa por outro, muito mais simpático com um escrito "welcome" e o desenho de uma vaca estilizada. Uma graça, super acolhedor. Mas, não passou nem um dia e o porteiro do prédio (que se chama “Jesus” – de batismo!) veio me dizer que o tal tapetinho "ia criar problemas". Tô saindo do prédio, quando ele me aborda, super sério, quase solene: “Vi seu tapete novo. Acho que você vai ter que retirá-lo”.
Eu: cara de interrogação
Jesus começa: "Há uns regulamentos a seguir neste edifício. O conselho comunitário (leia-se uma junta de vizinhos desocupados) comprou todos os tapetes de todos os apartamentos iguais, há sete anos, pra que não houvesse bagunça na decoração...”
Eu, procurando a câmera oculta.
E Jesus seguia: “A única exceção (fez questão de frisar) é o capacho da senhora do 3°, 1ª, que já é muito idosa e não caminha muito bem, por isso, tropeçaria no tapete...blablablablabla... Portanto, acho que você vai ser obrigada a retirar seu tapete... Muito bonito, na minha opinião, mas, você sabe como é, acho que a vizinha do 6°, 4ª vai criar caso...”
Sabe quando você sai de órbita? Ele lá, repetindo aquela baboseira, com ares de professor de primária e eu, de repente, em outra dimensão, imaginando a tal vizinha do 6°, 4ª agarrada ao olho mágico, detrás da porta, estudando os hábitos da vizinhança. Mas, quando volto à realidade, Jesus ainda está falando: “...então, por isso, eu acho que a vizinha do 6°, 4ª vai reclamar e o seu tapete...”
Corto o bom senhor: “Jesus, diga à vizinha do 6°, 4ª que a estou convidando pra um café na minha casa. Aí, a gente senta e debate esse tema do tapete. Vou ter o maior prazer em recebê-la. Você também está convidado, aliás”.
Escrito por Juliana Vale às 02:52 PM
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Ele, irredutível: “Ah, mas ela não vai querer ir à sua casa, não. Só vai vir aqui à portaria, falar comigo. Sabe como é. Porque a legislação do condomínio não permite que qualquer um resolva ter a decoração que quer. É preciso manter a unidade estética. Da porta pra dentro, tudo bem. Mas no corredor, você precisa entender. Tem a legislação e blablablabla” – recomeça a ladainha.
Olho o relógio, vejo os minutos passando e encerro a conversa: “Olha, Jesus, então, você pede, por favor, uma cópia escrita dessa legislação do condomínio, onde dizem literalmente que isto (ter um tapete de vaca) está proibido. Quando eu voltar, estudo o texto e falamos sobre isso mais tarde”.
Ele não teve tempo de reagir. Aproveitei essa micro pausa e saí. Claro: com meu melhor sorriso na cara pra não azedar o dia.
Previa voltar pra casa e encontrar meus vizinhos fazendo piquete na portaria, com Jesus como líder sindicalista na porta, bloqueando minha passagem e berrando por um megafone: “Exigimos que você retire seu tapete” e, em coro: “Re-ti-ra! Re-ti-ra! Re-ti-ra”. Mas não. Volto e, naquele dia, nada novo aconteceu. Nem havia piquete, nem recado da vizinha, nem mais sermão de Jesus. Ele tava mansinho outra vez.
Dou o assunto por encerrado... Até alguns meses depois, quando volto de viagem e encontro um envelope pardo no meio da correspondência acumulada. Abro e: Tcharam! Uma singela cartinha da imobiliária que administra o prédio, relatando a última reunião de condomínio (aliás, parêntesis: o que é um evento desses aqui? O porteiro é convidado de honra. Todos tomam cava – a champagne catalã – e passam o tempo todo, debatendo a vida dos ausentes). A tal carta da imobiliária avisava que, “segundo consenso”, eles (os outros moradores do prédio que freqüentam reunião de condomínio) haviam “decidido” que eu “deveria” retirar meu tapete. Pode? Aqui é assim. Todo mundo se mete com todo mundo, mas ninguém diz nada às claras. As pessoas se queixam. Só que por trás, sempre. Enfim.
Já sem muita paciência pra essa saga, liguei pra OCU (equivalente ao Procom, aqui na Espanha) e expliquei meu caso ao funcionário do serviço de atendimento ao cliente. Do outro lado da linha, o cara fingia que tossia, mas dava pra perceber que ele não tava era agüentando a gargalhada. Digo: “Pode rir, moço”. Ele comenta: “É que, em 12 anos de trabalho aqui na OCU, nunca recebi uma consulta tão insólita”. Rimos os dois e eu emendei: “Olha, na verdade, não tô nem aí pro tal tapete. Mas não vou ceder aos caprichos de um bando de desocupados fofoqueiros a tôa. Quero esclarecer até onde vão minhas obrigações de condômina e onde começa a intromissão do bedelho alheio". Num espírito de camaradagem, o homem acabou me dando uma resposta oficial e outra extra-oficial.
Na primeira versão, por pura diplomacia (porque não existe nenhuma exigência legal), ele me aconselharia a seguir a “unidade estética” do prédio e evitar novos aborrecimentos. Na segunda versão, ele sugeriu: “a la mierda” com toda essa palhaçada. Adivinhem o que escolhi.
Claro. Por um tempo, me senti persona non grata aqui no prédio. Mas os dias passaram e a fofoca deve ter sido substituída por outra. A vizinha do 6°, 4ª, que, antes nem olhava na minha cara, quando eu a cumprimentava no elevador, atualmente me dá 'bom dia', 'boa noite'. De vez em quando, até sorri.
Escrito por Juliana Vale às 02:52 PM
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Em
tempo: Quem ainda
não viu o filme Volver tem que
ir ver (ih, rimou!). Além da história – muito bem amarrada, com um roteiro
rocambolesco ao melhor estilo almodovariano, humor inteligente, personagens
cheios de paranóias e situações tragicômicas – Penélope Cruz, como protagonista,
está ótima e Lola Dueñas e Carmen Maura, impagáveis. Sabendo que opinião é que
nem bunda (cada um tem uma), passo ainda outros argumentos: Aqui na Espanha, o
filme foi visto por 1.840.000 pessoas e arrecadou quase 9,9 milhões de euros
(uns R$ 27,4 milhões). Em Cannes, ganhou o melhor roteiro e melhor interpretação
feminina. No Festival de San Sebastián, levou o Premio
Fipresci de melhor filme do ano (laurel disputado entre mais de 60 países).
Atualmente também está em cartaz em todas as capitais européias, na maioria dos
países da América Latina, nos EUA e, no fim do ano, estréia ainda no continente
asiático. |
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Escrito por Juliana Vale às 02:52 PM
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De volta
SETEMBRO E AS BOAS INTENÇÕES
Como diriam as funk divas do En Vogue, "Back to life, back to reality". 
Com nada mais nada menos que 667 novos e-mails na caixa postal do trabalho, encerro meus dias de bunda-lê-lê para retomar a vida severina. No intervalo da labuta, vim aqui contar que Barcelona - a segunda cidade mais linda do mundo - continua cheia de encanto, mas carece de pautas novas.
Me nego a etiquetar de “novidade” a gravidez da realeza espanhola (Doña Letizia - sim, ela mesma! A ex jornalista plebéia que se casou com o príncipe - espera seu segundo rebento. Com isso, reascende-se a polêmica sobre a reforma da Constituição, que atualmente privilegia o homem – e não a mulher – na linha de sucessão à coroa. Enfim. Aquele blablabla cansatiiiiiiiiiiiiivo de sempre). Como nem eu nem você nascemos com o sangue azul, nada disso afeta muito nossa humilde existência terrena. Pra quem vem pra cá ou vive aqui, o dia-a-dia tá feito mesmo com o típico panorama de setembro: O verão que vai acabando, o número de turistas que cai, as pessoas voltando a acordar cedo, a sofrer a espanholíssima síndrome pós vacacional (aliás, isso vale um futuro post!), as vitrines que começam a se encher de casacos e cachecóis e – claro – nossos bons e velhos planos de “trabalhar naquele projeto pessoal”, “ligar pros amigos sumidos”, “arrumar o armário”, “se livrar da pilha de papéis velhos ao lado do computador”, “dormir mais”, “aprender alguma coisa nova”, “não faltar à academia”... Todas essas belas promessas que, se não são postas em prática imediatamente, acabam engavetadas antes do fim de outubro :-)
Por hora, tô nadando em boas intenções. Aliás, vai ver, é por isso: Apesar dos escassos predicados culinários, prometi fazer um bolo de chocolate pra uma amiga querida que hoje sopra 33 velinhas. (segredo: Tô tensa. Bolo é difícil, né?! Porque não prometi a caipirinha?)
Escrito por Juliana Vale às 11:08 AM
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